As cidades não se formam por uma espécie de crescimento espontâneo, mas sim pela imigração.
Émile Durkheim
Ao longo das últimas décadas, milhares imigrantes de diferentes países chegaram a Portugal à procura de novas oportunidades, de melhores condições de vida ou para fugir de conflitos e dificuldades nos seus países de origem. Muitos destes fluxos migratórios contribuíram para a diversidade cultural do país.
Os principais grupos de imigrantes que chegaram a Portugal foram:
- cabo-verdianos;
- angolanos;
- brasileiros;
- ucranianos:
- romenos;
- indianos;
- nepaleses;
- cidadãos do Bangladesh.
Cada um destes grupos trouxe os seus costumes, tradições, idiomas, religiões e gastronomia. E compreender a história da imigração em Portugal permite ter uma maior noção da diversidade cultural do país e das transformações sociais ocorridas ao longo do tempo. Vamos então analisar os principais fluxos migratórios e o seu impacto na sociedade portuguesa?
Imigração cabo-verdiana
A presença cabo-verdiana em Portugal remonta aos anos 60 do século XX, com a chegada dos primeiros trabalhadores vindos das ilhas de Cabo Verde, ainda antes da independência do arquipélago.
Com o processo de descolonização, nos anos 70, este fluxo intensificou-se. Muitos cabo-verdianos chegaram para trabalhar na construção civil e nos serviços domésticos, sobretudo para a região de Lisboa.
Entre 1974 e os anos 80, formaram-se os primeiros bairros e comunidades cabo-verdianas em torno da capital. Com o tempo, esta comunidade tornou-se uma das mais antigas e estabelecidas do país, e continua a ser uma das mais numerosas em Portugal.
A morna, o crioulo cabo-verdiano e a gastronomia das ilhas fazem hoje parte do quotidiano de muitas cidades portuguesas.
Imigração angolana
A imigração angolana para Portugal começou também no período da descolonização, em meados dos anos 70, quando muitos cidadãos de Angola chegaram ao país, tanto por razões familiares como devido à instabilidade política que se seguiu à independência.
Muitos angolanos estabeleceram-se nas regiões de Lisboa e do Porto, trabalhando em diversos setores, da construção civil aos serviços. Com o tempo, formaram-se associações e comunidades que preservam os costumes e as tradições angolanas. A comunidade angolana é uma das principais comunidades africanas em Portugal, e contribui para a música, a gastronomia e a vida cultural do país.
Imigração brasileira
A imigração brasileira para Portugal aconteceu em diferentes vagas, até se tornar na maior comunidade estrangeira no país. Uma primeira vaga, ainda modesta, ocorreu a partir dos anos 80 e 90, com profissionais qualificados e estudantes. A partir do início dos anos 2000, o número de brasileiros começou a crescer de forma mais expressiva.

A partir de 2015, com a crise económica e política no Brasil, e sobretudo a partir de 2020, o fluxo de brasileiros para Portugal aumentou de forma muito significativa. Muitos vieram à procura de trabalho, de qualidade de vida e de oportunidades de investimento.
Os brasileiros que chegam a Portugal trabalham em áreas muito diversas, como a saúde, a tecnologia, a restauração e o comércio. A proximidade da língua e da cultura facilita, em muitos casos, o processo de integração.
É importante referir que a comunidade brasileira ultrapassa, atualmente, meio milhão de pessoas em Portugal, o que representa quase um terço de toda a população estrangeira residente no país.
Imigração da Europa de Leste
A imigração da Europa de Leste para Portugal começou, de forma expressiva, no final da década de 1990 e no início dos anos 2000, sobretudo entre 1999 e 2004. Este fluxo migratório deveu-se, em grande parte, à escassez de emprego nos países de origem, à abertura de fronteiras e à necessidade de mão de obra em setores como a construção civil e a agricultura, em Portugal.
Neste período, chegaram ao país sobretudo imigrantes de:
Ucrânia
Roménia
Moldávia
Rússia
Entre estes grupos, os ucranianos destacaram-se como o mais numeroso, ao ponto de a maioria dos imigrantes de Leste ser, muitas vezes, identificada como "ucraniana" pela população portuguesa, independentemente da sua origem exata.
Mais recentemente, a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, gerou uma nova vaga de chegada de cidadãos ucranianos a Portugal, desta vez ao abrigo do regime de proteção temporária para pessoas deslocadas pela guerra.
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Imigração indiana, nepalesa e do Bangladesh
Nos últimos anos, Portugal tem recebido um número crescente de imigrantes provenientes do sul da Ásia, nomeadamente da Índia, do Nepal e do Bangladesh. Este fluxo intensificou-se sobretudo a partir da década de 2010, impulsionado pela procura de mão de obra em setores como a agricultura intensiva, a construção civil, a restauração e os serviços de entrega.
Muitos destes imigrantes fixaram-se:
em regiões agrícolas do país, como o Alentejo;
nas grandes áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto.
A adaptação destes imigrantes nem sempre foi simples, devido às diferenças de língua, de cultura e de clima. Ainda assim, formaram-se comunidades e associações que ajudam na integração e na preservação das tradições de origem. A comunidade indiana é, hoje, uma das maiores comunidades estrangeiras em Portugal, seguida de perto pelas comunidades nepalesa e do Bangladesh, que têm registado um crescimento muito acentuado na última década.
Imigração britânica e de outros países europeus
Portugal tem recebido também um número significativo de imigrantes provenientes de países como o Reino Unido, a França, a Alemanha e a Itália.
Muitos destes imigrantes procuram a reforma, o clima ameno, a qualidade de vida ou o teletrabalho, fixando-se sobretudo no Algarve, na Madeira, em Lisboa e no litoral centro.
Trata-se, em geral, de uma imigração com um perfil socioeconómico distinto, associada ao chamado "estilo de vida" (lifestyle migration), embora existam também comunidades de trabalhadores e de estudantes destes países.
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Causas e impactos dos fluxos migratórios para Portugal
Os fluxos migratórios para Portugal ocorreram por vários motivos, ao longo da história. As principais causas destes fluxos foram (e continuam a ser):
- Procura de trabalho;
- Melhores condições de vida;
- Reunificação familiar;
- Fuga de conflitos e de guerras;
- Crises económicas nos países de origem;
- Perseguições políticas;
- Laços históricos e linguísticos com Portugal.
Em alguns períodos da história recente, o próprio mercado de trabalho português incentivou a chegada de imigrantes, sobretudo para colmatar a falta de mão de obra em setores como a construção, a agricultura e os serviços.
Os impactos da imigração têm sido importantes para o desenvolvimento de Portugal. Em termos económicos, os imigrantes contribuem para a agricultura, a construção, a indústria, o comércio e a prestação de serviços, ajudando a mitigar o envelhecimento demográfico e a despovoação de várias regiões do país.
Em termos sociais, a imigração contribuiu para a formação da diversidade cultural em Portugal. Os diferentes povos que chegaram ao país trouxeram os seus idiomas, a sua gastronomia, as suas festas, as suas músicas, as suas religiões e os seus costumes, hoje incorporados na cultura portuguesa.
É importante referir que, além dos efeitos positivos, os fluxos migratórios também trouxeram alguns desafios. Há necessidade de garantir habitação, emprego, educação, saúde e proteção adequada aos imigrantes. Além disso, alguns grupos enfrentaram, e ainda enfrentam, preconceito, discriminação e dificuldades de integração.
Estatísticas recentes da imigração em Portugal
cidadãos estrangeiros a residir no território nacional.
Este número quase quadruplicou desde 2017, ano em que residiam em Portugal 421.802 estrangeiros, o que representa um crescimento muito significativo em apenas sete anos.
Conforme os mesmos dados, os principais grupos de imigrantes em Portugal são:
A estes juntam-se ainda comunidades relevantes provenientes do Reino Unido, do Nepal, da Guiné-Bissau, de São Tomé e Príncipe, da China, de França e da Roménia. A maior parte da população estrangeira concentra-se nos distritos de Lisboa (606.179 pessoas, cerca de 39% do total), Setúbal, Faro e Porto.
O relatório da AIMA indica ainda que, em 2024, foram apresentados 2.677 pedidos de proteção internacional, tendo sido concedidas 1.244 autorizações de residência provisória ou o estatuto de refugiado e de proteção subsidiária, bem como 61.242 beneficiários de proteção temporária, na sua maioria pessoas deslocadas pela guerra na Ucrânia.
Tendências e projeções para o futuro
A imigração para Portugal apresenta uma tendência de crescimento e de diversificação. Uma das principais mudanças tem sido a origem dos imigrantes, com um peso cada vez maior de comunidades brasileiras, sul-asiáticas e africanas, em comparação com a imigração europeia mais tradicional.

Nos próximos anos, é provável que a imigração continue a ser influenciada por crises económicas e políticas, por conflitos, por oportunidades de trabalho e pelas relações históricas entre Portugal e os países de língua portuguesa.
Embora não seja possível prever com exatidão a quantidade de imigrantes que chegarão a Portugal, os dados indicam que o país continuará a receber pessoas provenientes de vários pontos do mundo. A tendência aponta para uma população portuguesa cada vez mais diversificada, o que requer que sejam implementadas políticas públicas voltadas para o acolhimento, o emprego, a educação, a saúde e a integração social dos imigrantes.
A verdade é que a diversidade cultural portuguesa deve muito às sucessivas ondas migratórias de chegada de outros povos ao país, ao longo das últimas décadas. E essa tendência deve manter-se nos próximos anos!
Referências
- AIMA (2024) Relatório de Migrações e Asilo 2024, acesso realizado em 21 de setembro de 2026. https://aima.gov.pt/media/pages/documents/fec4d6a712-1760603125/relatorio-migracoes-e-asilo-2024.pdf
- AIMA (2024) População Estrangeira Residente em Portugal 2024, acesso realizado em 21 de setembro de 2026. https://om.aima.gov.pt/wp-content/uploads/2026/01/OM_Populacao_Estrangeira_2024FINAL.pdf
- ECO (2025) Portugal tem 1,5 milhões de imigrantes. Quem são, de onde vêm e onde estão?, acesso realizado em 21 de setembro de 2026. https://eco.sapo.pt/2025/10/18/portugal-tem-15-milhoes-de-imigrantes-quem-sao-de-onde-vem-e-onde-estao/
- Público (2019) Uma coisa é o que diz a lei sobre os imigrantes, outra é como os tratamos, acesso realizado em 21 de setembro de 2026. https://www.publico.pt/2019/01/18/sociedade/noticia/imigracao-lei-tratamos-imigrantes-1857503
- Comissão Europeia (2026) Key integration developments and research in Portugal, acesso realizado em 21 de setembro de 2026. https://home-affairs.ec.europa.eu/news/key-integration-developments-and-research-portugal-2026-01-26_en
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