A escrita não é senão ritmo.
Virginia Woolf
A ortografia correta é fundamental no desenvolvimento linguístico das crianças no ensino básico. Mas muitas das crianças em fase de alfabetização sentem dificuldades na língua portuguesa. Seja na fala, na leitura ou na escrita, estes estudantes precisam de um suporte extra para superarem as barreiras da aprendizagem do idioma.
Os erros ortográficos em crianças do ensino básico geralmente resultam de dificuldades na correspondência fonema-grafema, desconhecimento das regras ortográficas e influência da oralidade. Muitas vezes os pais têm dificuldade em lidar com estes problemas de compreensão. E a dúvida mais angustiantes é como é que podem ajudar os filhos a ultrapassar essas dificuldades.
Para corrigi-los, é essencial promover a leitura regular, exercícios de escrita e o ensino sistemático das regras ortográficas. E, por isso, neste artigo abordamos os erros ortográficos mais comuns, as suas causas e estratégias eficazes para correção, com o objetivo de melhorar a escrita dos alunos.
🧠Principais tipos de erros ortográficos em crianças
Já todos nós ouvimos dizer é que é através dos nossos erros que aprendemos. E a verdade é que a aprendizagem da escrita da língua portuguesa (para jornais) passa pelo mesmo processo. Assim que a criança aprende a identificar o som das letras e a identificar as letras presentes dentro das palavras, deve começar a pensar em como transcrevê-las para o papel.

Utilizando os conhecimentos que os pequeninos acabaram de adquirir durante a alfabetização, ou seja, o contacto com as letras do alfabeto, começam a aventura da escrita. Esta jornada acontece através de um "jogo" de erros e acertos, porque os pupilos ganham conhecimentos relacionados com a ortografia ao analisarem os erros ortográficos que cometem. Mas que erros são esses? Vamos ver alguns dos mais comuns.
🔤Erros de substituição de letras
Ocorrem quando a criança escreve (escreva melhor em português) a palavra como a pronuncia. É o caso da confusão entre o "c" e o "ç". Isto acontece principalmente porque as duas letras podem representar o mesmo som, especialmente em palavras como "receber" e "caçar". Os pequenos tendem a utilizar o "ç" em situações onde o "c" deveria ser utilizado, ou vice-versa.
É por isso que os professores utilizam textos simples e repetitivos, como histórias infantis, para ajudar as crianças a ganhar confiança.
O "s" e o "z" são outras consoantes que frequentemente causam dificuldades. A ortografia portuguesa tem regras específicas sobre quando devemos usar cada uma delas, mas os alunos muitas vezes erram ao escolher entre elas. Exemplos comuns incluem escrever "caza" em vez de "casa" ou "aseito" em vez de "aceito". A dificuldade reside na semelhança sonora entre as duas consoantes, especialmente em contextos onde o som não é bem distintivo.
➕➖Erros de omissão ou acréscimo de letras
Entre os erros ortográficos mais comuns nas crianças em fase de aprendizagem, destacam-se a omissão e o acréscimo indevido de letras. Ambos resultam, na maioria dos casos, de uma escrita orientada pela oralidade: a criança escreve aquilo que ouve, sem ainda ter interiorizado as convenções ortográficas da língua escrita.

A omissão acontece quando a criança suprime uma ou mais letras de uma palavra, geralmente porque a pronúncia não indica claramente a necessidade da letra. O "h" inicial em palavras como "hoje" ou "hora" também é uma fonte frequente de erros. Muitos estudantes esquecem-se de a incluir em palavras que exigem a sua presença, e escrevem coisas como "oje" ou "haver" em vez de "aver".
O acréscimo indevido de letras segue uma lógica inversa: a criança adiciona letras que não existem na grafia correta da palavra, por analogia com outras que conhece ou por hipercorreção.
Por exemplo, escrever "cassa" em vez de "casa", influenciada por palavras como "massa" ou "passa" em que a consoante dupla está correta.
🎯Erros de acentuação
A acentuação gráfica também é uma área problemática. Os alunos muitas vezes esquecem de acentuar palavras que exigem acentos ou utilizam acentos em locais incorretos. Exemplos incluem a troca entre "pára" (verbo) e "para" (preposição), ou a ausência de acento em palavras como "avô" e "avó", que sem acento se tornam homógrafas (palavras iguais com significados diferentes) e perdem o sentido correto no contexto da frase.
🔗Erros de segmentação
Na escrita de textos, os erros mais comuns em português são caracterizados pela segmentação não convencional das palavras. Regra geral, os mais pequenos segmentam a palavra onde não é necessário, por existir uma separação na versão oral. Exemplo, "a migo" em vez de "amigo". Ou juntam duas palavras que são escritas separadas, por exemplo "apartir" em vez de "a partir".
Erros de nasalização
Acontece quando a criança não deteta a diferença entre vogais nasais e orais, como na escrita de "iteiro" (inteiro). Nas palavras em que o som das vogais "e" e "i" ou "o" e "u" é semelhante, os mais pequenos muitas vezes enganam-se. Escrever "demais" como "dimais" é outro exemplo desta confusão. Isto acontece principalmente quando os estudantes não prestam atenção à pronúncia e à grafia correta das palavras, resultando em palavras que, embora foneticamente semelhantes, têm grafias e significados diferentes.
Erros devido à concorrência
A ortografia de algumas palavras está mais ligada à sua origem do que aos sons das letras propriamente ditos. Ou seja, a escolha da letra apropriada para representar certo fonema depende não de aspetos fonológicos, mas da etimologia ou de aspetos morfológicos.
Exemplo disso é a utilização de "s" ou "z" entre vogais, o uso de "ss" ou "ç" a seguir a "a", "o" e "u", a utilização de "g" ou "j" a seguir a "e" e "i", a utilização de "x" ou "ch" em várias palavras. Outro erro recorrente é a confusão entre o "x" e o "ch". Palavras como "chave" e "exame" são frequentemente mal escritas como "xave" e "echame".
Erros nas sílabas complexas
Ocorrem na escrita de sílabas com estruturas diferentes, que não sejam consoante-vogal. "Boboleta" (borboleta) ou "baço" (braço) são um bom exemplo deste tipo de erro. A utilização inadequada dos dígrafos "nh", "lh" e "ch" também pode ser classificado nessa categoria, como ao escrever "coelo" em vez de "coelho", por exemplo.
Erros por troca de letras
Acontece quando a letra errada é escolhida para representar determinado som, ou na troca entre consoantes mudas e sonoras como:
"p" por "b"
"t" por "d"
"c" por "g"
Em palavras como "psicologia" e "gnomo", as consoantes iniciais "p" e "g" são mudas, mas essenciais para a grafia correta. Muitos alunos deixam de incluí-las, resultando em erros como "sicologia" e "nomo".
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🧠Causas comuns dos erros ortográficos
Perceber por que razão as crianças cometem erros ortográficos é o primeiro passo para as ajudar a superá-los. Na maioria dos casos, estes erros não são sinal de falta de esforço ou de capacidade, refletem antes etapas naturais do processo de aprendizagem da escrita.

Existem três causas principais que estão na origem da maior parte das dificuldades ortográficas: a influência da oralidade, o desconhecimento das regras da língua e as dificuldades na consciência fonológica.
🗣️ Influência da oralidade
Uma das causas mais frequentes dos erros ortográficos é a tendência para escrever tal como se fala. A criança, ao iniciar o processo de aprendizagem da escrita, recorre naturalmente àquilo que já conhece (a língua oral) e tenta reproduzi-la graficamente. O problema é que o português escrito nem sempre corresponde ao falado, e essa distância entre a fala e a escrita é uma fonte constante de confusão.
A pronúncia regional acentua ainda mais este fenómeno. Em Portugal, consoante a região, as mesmas palavras podem ser pronunciadas de forma bastante distinta. Uma criança que, no seu ambiente familiar ou na sua região, ouça determinadas vogais reduzidas ou certas consoantes suprimidas na fala espontânea terá naturalmente maior tendência para reproduzir essa pronúncia na escrita.
Não há nada mais nortenho que trocar o "v" pelo "b", mas não convém ensinar a criança a escrever assim!
📚Desconhecimento das regras ortográficas
A ortografia portuguesa é, em muitos aspetos, complexa e pouco intuitiva. Existem inúmeras regras, e inúmeras exceções, que não podem ser deduzidas apenas pela forma como as palavras soam. A utilização correta de s, ss, c, ç, x ou z, por exemplo, obedece a convenções que têm de ser ensinadas e praticadas de forma explícita, pois não se inferem a partir da pronúncia.
Quando a criança ainda não interiorizou estas normas, recorre a estratégias de aproximação baseadas naquilo que já sabe, o que frequentemente resulta em erros como "fasil" em vez de "fácil", "sidade" em vez de "cidade" ou "exenplo" em vez de "exemplo".
Também escreve "pasarinho", porque desconhece que a letra "s" entre vogais tem o som de "z". Ou "gitarra", porque não sabe que a letra "g" à frente de "e" e "i" apresenta um som diferente daquele de quando está à frente das vogais "a", "o", ou "u".
Da mesma forma, a regra de usar "m" antes de "p" e "b", e "n" antes das demais consoantes, é frequentemente desrespeitada. Assim, palavras como "também" e "conta" podem ser escritas como "tanbém" e "comta". Este erro é comum porque os alunos não compreendem completamente a regra ou simplesmente não a aplicam de forma consistente.
O desconhecimento das regras não é uma falha, é simplesmente o reflexo de um processo de aprendizagem que ainda está em curso e que exige tempo, exposição e prática continuada.
🔊Dificuldades na consciência fonológica
A consciência fonológica é a capacidade de identificar e manipular os sons que compõem as palavras: sílabas, fonemas, rimas. Trata-se de uma competência fundamental para aprender a ler e a escrever corretamente, e o seu desenvolvimento não é automático. Precisa de ser estimulado de forma intencional.
As crianças com dificuldades nesta área têm problemas em associar cada som à sua representação gráfica correta, o que se traduz em erros de substituição, inversão ou omissão de letras.

Por exemplo, confundir "b" com "d" ou "p" com "q" é um erro típico de quem ainda não consolidou a correspondência entre o som e o símbolo que o representa. O mesmo acontece com sons semelhantes, como o "v" e o "f" ou o "s" e o "z", que facilmente se confundem quando a consciência fonológica não está suficientemente desenvolvida.
Trabalhar esta competência desde cedo, através de jogos de rimas, divisão silábica, identificação de sons iniciais e finais das palavras, é uma das formas mais eficazes de prevenir dificuldades ortográficas e de criar bases sólidas para uma escrita cada vez mais segura e autónoma.
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🚀Estratégias para reduzir erros ortográficos
Corrigir a ortografia das crianças requer uma abordagem multidisciplinar que envolve métodos tradicionais e inovações pedagógicas. Deixamos aqui alguns métodos e sugestões de atividades para melhorar o desenvolvimento da ortografia das crianças que cometem constantemente os erros citados acima.
📖 Leitura regular
A principal questão a ser trabalhada é a distinção entre fala e escrita, bem como a compreensão de que o padrão acústico-articulatório (como as palavras são pronunciadas) nem sempre é suficiente para determinar a escrita.

Neste sentido, é fundamental estimular o contacto regular com a linguagem escrita, permitindo à criança familiarizar-se com a grafia correta das palavras. Em paralelo, devem desenvolver-se atividades que enfatizem a diferença entre a forma como pronunciamos certas palavras e a forma como as escrevemos, podendo isso ser feito através de músicas cantadas, gravações de pessoas a conversar, entre outros recursos.
Este tipo de abordagem favorece a identificação dos fonemas que compõem as palavras e reforça a compreensão da diferença entre oralidade e grafismo.
✍️ Prática de escrita
Os ditados constituem uma estratégia tradicional, mas continuam a ser eficazes para reforçar a ortografia. O professor pode ditar frases ou parágrafos inteiros e, posteriormente, rever o texto com os alunos, apontando e corrigindo os erros.
Estes ditados devem ser adaptados ao nível de dificuldade de cada grupo, para garantir que são desafiantes, mas não desmotivadores.
Para crianças que apresentam erros de troca de letras, é necessário destacar, na própria fala, a identificação e diferenciação dos fonemas surdos e sonoros, relacionando o som a ser escrito com a letra específica. Para tal, é importante propor atividades em que a criança, por exemplo, separe figuras de grupos com o som de “f” das que apresentam o som de “v”, ou até realizar trocas intencionais de letras para que a criança perceba essas diferenças e vá dominando progressivamente a escrita.
No que diz respeito à nasalização e às sílabas complexas, a criança deve ser estimulada a identificar todos os fonemas que compõem as palavras, bem como as letras que os representam. Deve ainda ser levada a compreender as diferentes construções silábicas através de atividades de separação de sílabas e análise da quantidade de fonemas e letras em cada sílaba. Exercícios que envolvam omissões e acréscimos de fonemas e letras, como o uso do marcador de nasalização (“n” ou “m”), são úteis para a perceção da necessidade de utilizar todas as letras na escrita.
📏 Ensino explícito das regras ortográficas
A criança deve compreender as várias relações estabelecidas entre letra e som. Uma estratégia pedagógica eficaz passa pela realização de atividades de pesquisa e classificação de palavras que obedeçam a determinadas regras contextuais.

Por exemplo, exercícios que proponham a separação de palavras com a letra “c” com som de “k” daquelas em que o “c” tem som de “s”, permitindo observar e discutir regularidades. Quando se tratam de palavras irregulares devido a aspetos etimológicos, como a utilização da letra “h” no início das palavras ou a concorrência entre “x” e “ch”, deve ser incentivada a memorização das grafias mais frequentes e a consulta do dicionário em caso de dúvida.
Os professores devem ainda criar exercícios que desafiem os alunos a aplicar estas regras em diferentes contextos, e fortalecem a sua compreensão e aplicação prática.
Ensinar e reforçar regras ortográficas de português de forma sistemática é crucial. Dedicar momentos específicos à revisão da utilização correta de “c” e “ç” ou “s” e “z” ajuda os alunos a interiorizar essas normas.
🎮Uso de recursos didáticos
A fala apresenta-se como um fluxo contínuo em que as palavras surgem interligadas, mas na escrita estas aparecem separadas, sendo por isso importante trabalhar a segmentação. Para ultrapassar este tipo de dificuldade, torna-se essencial reforçar a diferenciação entre a forma como falamos e a forma como escrevemos.
Atividades que explorem o conceito de frase e os seus elementos constituintes (as palavras) são particularmente úteis. Outras formas podem incluir escrever frases com todas as palavras juntas para que a criança as separe, ordenar palavras embaralhadas ou completar frases com palavras em falta.

Sempre que possível, devem ser utilizados jogos educativos, como palavras cruzadas, caça-palavras ou concursos de soletrar, que tornam a aprendizagem mais dinâmica, envolvente e menos monótona. Estes jogos ajudam os alunos a fixar a grafia correta das palavras de forma lúdica.
Existem diversos livros com atividades deste tipo, mas também é possível recorrer à internet, que disponibiliza uma grande variedade de recursos, muitos deles gratuitos, que permitem treinar a ortografia das crianças de forma acessível e eficaz.
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