Desde pequenininhos, somos estimulados a aprender através da música. Seja pelos sons, pelo ritmo ou até mesmo pelo que nos pode ensinar a letra. Mas a verdade é que a música é muito mais que isso! Particularmente quando falamos de música popular brasileira (ou MPB).
A MPB representa, como poucas outras expressões culturais, a complexidade e a riqueza do povo brasileiro. Nascida da confluência de múltiplas influências, africanas, europeias, indígenas e, mais tarde, norte-americanas, é um verdadeiro espelho da diversidade étnica, linguística e regional do Brasil.
Ao longo do tempo, a MPB evoluiu como resposta a transformações políticas, sociais e tecnológicas, e consolidou-se como um símbolo de identidade nacional e uma força criativa de reconhecimento mundial. Continue a ler para explorar essa história, desde as suas raízes no século XIX até à produção contemporânea, bem como alguns dos seus nomes mais influentes, tanto no passado como na atualidade.
O que é a MBP?
A MPB, ou música popular brasileira, é um género musical que surgiu no Brasil em meados da década de 1960. O termo “música popular brasileira” já existia no início do século XX para designar manifestações folclóricas e populares, mas a sua interpretação moderna só se assimilou nos anos 60. Nesta época, a bossa nova, influenciada pelo jazz norte-americano, tinha dado novos contornos ao samba tradicional.

O movimento ganhou personalidade própria ao combinar a sofisticação harmónica e os arranjos da bossa nova, com elementos da música regional do país. A MPB sempre foi marcada pela diversidade de influências (indígenas, africanas e europeias) que ajudaram a moldar a sua identidade única, o que torna difícil encaixá-la num estilo fixo. Esta variedade é um dos traços mais celebrados da MPB moderna, porque permite que incorpore continuamente novas ideias sem perder a sua brasilidade.
Convém esclarecer que o termo MPB, apesar de genérico, refere-se a um conjunto específico de canções e artistas, distinguindo-se de géneros puros como samba, choro ou rock. E ainda que muita gente utilize MPB para definir este estilo em específico, há quem use o termo genericamente para qualquer música popular produzida no Brasil. Por isso não se confunda!
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As raízes da MPB
A música no Brasil começou a formar-se ainda durante o período colonial. Os primeiros contactos entre os colonizadores portugueses e os povos indígenas deram origem a hibridismos sonoros que, mais tarde, se intensificariam com a chegada dos africanos escravizados. Esta fusão de culturas gerou práticas musicais distintas que deram origem a ritmos como o lundu, o batuque, o maracatu e mais tarde o maxixe, considerado por muitos o “avô” do samba.
O choro, surgido no século XIX, estabeleceu-se como uma das primeiras expressões musicais urbanas do país. Com músicos como Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth e posteriormente Pixinguinha, o choro evidenciava já uma sofisticação melódica e rítmica que influenciaria toda a música popular posterior.
No início do século XX, o samba urbano, oriundo das comunidades afrodescendentes do Rio de Janeiro, começou a ganhar notoriedade, tornando-se rapidamente o género mais emblemático do país. Em 1917, Pelo Telefone, de Donga e Mauro de Almeida, foi o primeiro samba gravado, marcando o início da indústria fonográfica no país.
A era do rádio
Com a chegada do rádio nos anos 1930, a música tornou-se um instrumento fundamental na construção de uma identidade nacional durante o governo de Getúlio Vargas, que usou os media para promover uma ideia de Brasil unificado. Neste período, surgiram grandes intérpretes como Francisco Alves, Orlando Silva e Carmen Miranda, esta última que levou o samba e o tropicalismo ao público internacional.
Enquanto que no Brasil a sua imagem era vista por alguns como estereotipada, nos Estados Unidos foi recebida como uma espécie de embaixadora cultural. A sua influência ajudou a estabelecer uma presença duradoura das músicas brasileiras nos palcos e ecrãs do mundo.
O samba-canção, nas décadas de 1940 e 1950, introduziu temas mais introspetivos e românticos, com intérpretes como Maysa, Angela Maria, Dalva de Oliveira e Nelson Gonçalves. Este período também viu o fortalecimento de compositores como Dorival Caymmi, que trouxe à música nacional temas ligados ao mar e à vida na Bahia.
Bossa Nova: a abertura ao mundo
Nos anos 1950, surge a Bossa Nova, uma das maiores revoluções estéticas da música brasileira. Criada por jovens músicos cariocas da classe média, a Bossa Nova combinava o samba com harmonias complexas do jazz norte-americano, criando uma música intimista, melódica e altamente refinada.
João Gilberto é considerado o grande inovador do estilo, com a sua batida singular no violão e a sua forma minimalista de cantar. O lançamento do disco Chega de Saudade em 1959, com músicas de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, marca o seu início formal. A internacionalização da Bossa Nova foi impulsionada pela colaboração com músicos como Stan Getz e o sucesso de The Girl from Ipanema, versão inglesa da Garota de Ipanema.
A Bossa Nova foi o primeiro grande sucesso global da música brasileira e até hoje influencia intérpretes e compositores de diversas partes do mundo!
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Tropicália
Nos anos 1960, o Brasil atravessava um período turbulento, porque o golpe militar de 1964 instaurou uma ditadura que iria durar duas décadas. Nesse contexto, a arte passou a exercer um papel político e social ainda mais relevante. E foi nesse ambiente que nasceu o movimento Tropicália, ou Tropicalismo, em 1967.
Ao misturar música popular com elementos de vanguarda, o Tropicalismo tinha como objetivo desconstruir padrões estéticos e sociais. Com influências do rock psicadélico, da arte concreta, do cinema novo e do concretismo literário, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Os Mutantes e Rogério Duprat produziram obras que confrontavam tanto a tradição, como a censura oficial.
O álbum Tropicália ou Panis et Circencis, lançado em 1968, é considerado o manifesto musical desta época. Esta coletânea reunia diversos nomes do movimento num projeto ousado e provocador, e misturava rock psicadélico, ritmos brasileiros tradicionais e até trechos falados com teor político. A repressão foi intensa, com Caetano e Gil presos e posteriormente exilados em Londres.

Mas a verdade é que, durante a ditadura, a música tornou-se um espaço de resistência. O Festival da Canção tornou-se um palco simbólico para os músicos expressarem, mesmo que metaforicamente, a sua oposição ao regime! Muitos cantores passaram a apresentar-se em boates, clubes e teatros, longe das grandes emissoras de TV, enquanto produtores e compositores inventavam formas criativas de contornar a vigilância oficial. As canções de protesto eram lançadas de forma subtil, com letras carregadas de metáforas e arranjos sofisticados que escondiam críticas ao regime.
Chico Buarque destacou-se durante esta época como um dos letristas e compositores mais importantes do Brasil, ao produzir canções densas, irónicas e altamente críticas, muitas vezes disfarçadas de canções de amor ou com linguagem ambígua para escapar à censura. Apesar de Você e Cálice são exemplos paradigmáticos.
Outros nomes como Elis Regina, com a sua interpretação poderosa e crítica, e Milton Nascimento, cuja música carregava lirismo e espiritualidade, consolidaram a MPB como um território de denúncia e reflexão social.
O Clube da Esquina, um movimento mineiro liderado por Milton e Lô Borges, fundiu MPB com rock progressivo, música clássica e folclore mineiro, o que contribui para a diversificação estética da música brasileira.
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Entre a indústria e a autenticidade
Na década de 1970, a descentralização desta vertente tornou-se evidente. A redescoberta da música nordestina trouxe à tona estilos como o forró, o xaxado, o frevo e o maracatu. Músicos como Luiz Gonzaga, já reconhecido desde os anos 1940, viram os seus temas ser reinterpretados por nomes como Zé Ramalho, Elba Ramalho, Alceu Valença e Fagner, que integraram estes ritmos numa nova linguagem da MPB.
Paralelamente, a chamada “geração baiana” (Gilberto Gil, Caetano Veloso, Gal Costa e Maria Bethânia) manteve-se no auge, lançando álbuns importantes e consolidando o seu legado cultural. Nesse período também surgiram novos compositores marcantes: no Norte despontou Fafá de Belém, no Nordeste destacaram-se Djavan (Alagoas), Belchior e Fagner (Ceará), Elba Ramalho (Paraíba) e Alceu Valença (Pernambuco), e no Sudeste continuavam populares Clara Nunes (Minas Gerais) e Elza Soares (Rio de Janeiro).
A valorização do Brasil do interior também se refletiu na ascensão de artistas do sertão, com composições que abordavam temas como a seca, a migração, o amor rural e o misticismo popular. Este processo ampliou a noção de brasilidade musical.
Com o regresso da democracia, a música brasileira viveu um período de libertação artística. A década de 1980 assistiu ao florescimento do rock brasileiro, com bandas como Legião Urbana, Titãs, Paralamas do Sucesso, Barão Vermelho e Os Engenheiros do Hawaii, que incorporaram elementos líricos e poéticos da MPB.

Ao mesmo tempo, alguns intérpretes e compositores que estavam tradicionalmente ligados à MPB, reinventaram-se com sonoridades modernas. Surgiram também novos nomes como Marisa Monte, com uma voz sofisticada e repertório refinado, e Lenine, que combinava ritmos tradicionais com rock e eletrónica. Apesar da influência do rock e do pop internacional nessa década, a MPB continuou a produzir sucessos de rádio e a manter os seus maiores astros em atividade.
A televisão teve papel crucial na difusão da música neste período. Programas como "Fantástico", festivais televisivos e telenovelas popularizaram muitos temas, aproximando os músicos do grande público e criando verdadeiros fenómenos nacionais.
A globalização do século XXI
Com a massificação da internet e a descentralização das gravadoras, emergiram novas formas de produzir e distribuir música. Plataformas como YouTube, Spotify e SoundCloud permitiram o surgimento de uma nova geração de músicos independentes que redefiniram a paisagem da MPB.
Nomes como Maria Gadú, Seu Jorge, Tribalistas, Tiago Iorc, Céu, Tulipa Ruiz, Marcelo Jeneci, Anavitória e Mallu Magalhães trouxeram novas sonoridades, muitas vezes inspiradas em folk, indie pop e eletrónica, mas com fortes raízes na tradição lírica da MPB.
Simultaneamente, a música urbana ganhou espaço, com nomes como Emicida, Criolo, Karol Conká, Drik Barbosa e BK’ levando o rap e o hip hop a um novo patamar, tanto estético como poético. O álbum AmarElo de Emicida lançado em 2019 é um marco desta nova vertente, com parcerias com Pabllo Vittar, Majur e Zeca Pagodinho, que cruzam referências clássicas com questões contemporâneas como o racismo, a desigualdade e a saúde mental.
Ao mesmo tempo, os veteranos mais clássicos mantiveram a relevância, continuam a gravar músicas, lançar CDs e fazer tours mundiais, Chico Buarque, por exemplo, continua a compor, e muitas das novas gerações aproveitam-se dos seus repertórios para conseguir inspiração.
Todos estes talentos jovens continuam a reinventar o estilo, ao combinar referências do passado (como o samba, o baião e o jazz) com ambientações contemporâneas, alcançam sucesso nas rádios, na internet e até em festivais internacionais.
Esta convivência de gerações mostra que a MPB continua viva e multifacetada, aberta a colaborações entre músicos de diferentes épocas. No fundo mantém o amplo espectro sonoro dos seus primórdios, e engloba o samba das raízes e enquanto explora o pop, o rock e a música eletrónica sem perder o seu caráter brasileiro.
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A influência da mulher
Historicamente, a MPB foi marcada por grandes vozes femininas como Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia e Nara Leão. No entanto, nas últimas décadas, tem-se assistido a um fortalecimento da presença feminina, não apenas no papel de intérpretes, mas também como compositoras, produtoras e líderes de banda.
Luedji Luna, Xênia França, Duda Beat, Marina Sena, Iza, Clarice Falcão, Luísa Sonza e Liniker representam uma geração diversa e comprometida com temáticas como o feminismo, os direitos LGBTQIA+, a representatividade racial e as novas formas de amar.
Estas cantoras não apenas expandem os horizontes da MPB, como também desafiam o machismo estrutural da indústria musical, e tentam abrir espaço para uma nova sensibilidade e pluralidade estética.
A influência atual
Hoje em dia, a MPB continua viva e relevante, tanto no Brasil, como pelo mundo fora. As plataformas digitais (como rádios online, plataformas de streaming e redes sociais) permitiram que toda a discografia destes cantores, compositores e intérpretes ficasse disponível a novos públicos; um jovem de fora do país pode ouvir Luiz Gonzaga ou Marisa Monte a um clique de distância, por exemplo. Nesta era de globalização em que vivemos, são vários os nomes brasileiros que se estabeleceram internacionalmente como embaixadores da música nacional.

Várias bandas e cantores realizam tours pela Europa, Ásia e América do Norte, participam em festivais multiculturais e levam as canções brasileiras a públicos diversos.
E engane-se se pensa que a MPB é celebrada apenas nas artes musicais, porque isso não é verdade! Encontra menções em vários meios de multimédia, como: documentários, biografias de músicos e programas de televisão. Não é apenas música, é também uma narrativa poética que transborda para outras artes. Filmes como Vinicius (2005), Tropicália (2012), e Chico – Artista Brasileiro (2015) documentam a vida e obra dos grandes nomes desta arte.
Na literatura, autores como Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu e Milton Hatoum já citaram composições da MPB como parte do universo sensível dos seus personagens. A canção popular funciona frequentemente como suporte emocional e comentário social. Nas redes sociais e podcasts, os debates sobre o estilo também têm vindo a crescer, com novos espaços de escuta e crítica que resgatam tanto a produção clássica, como a contemporânea.
Outro exemplo é a inclusão da MPB em roteiros culturais e festivais internacionais, que frequentemente convidam músicos brasileiros para mostrar o seu trabalho. Festivais independentes de música também proliferam nas principais capitais e online, onde se dá espaço a novos talentos. Em paralelo, vários museus e instituições culturais organizam exposições e pesquisas dedicadas ao estilo, de forma a preservar a sua história e inspirar jovens criadores.
Tudo isto contribui para a continuidade do diálogo geracional à volta da música brasileira. Cada disco ou artista lançado hoje carrega uma centelha do movimento original, não como um envelhecimento, mas uma renovação a cada geração.
O Prémio da Música Brasileira passou a homenagear anualmente artistas de diversos géneros nacionais, incluindo a MPB.
Resumindo, mesmo após cinco décadas a música popular brasileira continua viva e pulsante, e a cruzar gerações. Tanto os clássicos do passado, como as novas canções atuais convivem lado a lado, o que prova que esta mistura de tradição e inovação tão característica permanece como a banda sonora das conquistas e desafios do país.
Este não é um estilo estanque, mas sim um processo vivo de criação cultural. É ao mesmo tempo vanguarda e tradição, poesia e política, festa e reflexão. No mundo globalizado em que vivemos, a MPB mantém a sua relevância ao adaptar-se sem perder a identidade. A sua vitalidade está na multiplicidade: um Brasil de mil vozes, mil ritmos, mil formas de existir. E enquanto houver quem cante a dor, o amor, a esperança e a luta, haverá sempre MPB.
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